sábado, 29 de dezembro de 2012


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em casa coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha porque alta vive

Ricardo Reis, in "Odes"

sábado, 15 de dezembro de 2012

 















O que é que essa baiana tem?

Aquela saia nunca toca no chão
Mas só levanta sacudida pelo som
do samba ou candomblé
ou panela no fogão com bobó de camarão

Carrega fruto proibido na cabeça
Mas nem isso pesa na consciência
E deixa tudo em posição de reverência
Parece definição de beleza

Tem toda a cor que já foi inventada
Mas nunca muda para cor de pimenta
Isso só serve para usar em receita

Tem cheiro de espuma de mar
Temperada com sal na pele
E doçura no temperamento
Esssa baiana é um acontecimento!

sábado, 8 de dezembro de 2012
















Cenários premeditados

Assim ficam
Inertes e serenos
Apaziguados
Por palavras repetidas
Sorrisos arregaçados
Gestos ensaiados
Ombros desencantados
Vontades vigiadas
Mentes sincronizadas
Sentimentos acromáticos
Que se apossam de todos os objetos
Como tu
Inerte e sereno
Apaziguado e obediente
Assim ficas escondido na multidão
Ansiando em lamber o chão
E dispensar a tua razão






















Não há bela sem demão

Pois ela é assim
Promete os seus lábios
Retocados com rigor de ciência
Maquiavélicos na sua magnificiência
O mundo inteiro que se muna de prudência
Aquele batom serve como advertência

Faces manchadas de cor de pudor
Digna interpretação
De franca modéstia ou sacerdotisa de Vesta?
Veste um espartilho para emoções
Saltos obstinados que repudiam o chão
E carrega uma beleza extenuante no semblante

Mas esgotada a paleta de cores na superfície
(Imitação de algum quadro de Matisse)
Nada sobra para preencher o espírito opaco
E assim permanece aquele vácuo





Amor em palavras, atos e omissões

Numa folha de papel
Vazia
Sem cor
Arrumo palavras soltas de amor

Em vão escondê-las
Dentro de um livro resguardado
Ou sob a minha pele
Trocadas por gestos arrebatados

Quero desenhá-las no teu corpo
Segredá-las ao teu ouvido
Ainda que na forma de um gemido

Atos protegidos
Por nuvens carregadas
Assim um amor encoberto
Pela chuva desafinada

Mas longe de ti....

Com estas paredes
Vazias
Sem cor
Partilharei confidências de amor




Paraíso no meu olhar

Assim te contemplo
À distância de uma fantasia
Fugitiva de condenação por heresia
Castigada por alguma lei que não inventei

Perdi a minha morada
Exilada nessa agonia
Desobediente ao meu corpo que treme
Refém de uma consciência que mente

Cravei o meu esmalte vermelho
Nestes muros que se erguem
Escolhi-te como meu plano de escape
Enquanto não...
Pela janela vou observar-te
Ou de algum sonho mascarar-te



Castigos do tempo

Se o meu desejo ganhasse forma
Teria a tua pele
Preparada por um toque somente
Percorrê-la-ia incansavelmente

Invadiste-me sem me pedir
Sais pelos meus poros
Deambulas pelos meus olhos

Enquanto te invento de mil e uma formas
As traças devoram o vestido que preparei para ti
Ensaio gestos que a mais ningém prometi
Adiando a confissão de que te escolhi

O tempo não aceitará argumentos,
Quando revelar os meus intentos.




Pelo teu mundo silencioso

Pelo teu mundo silencioso,
Sinto a tua sombra deslizar,
Pelo chão, paredes,
minhas mãos,
que lanço em vão para a agarrar.

Porque não consegues adivinhar?

Não sentes as palavras que quero sussurrar no teu pescoço,
Não cheiras o café que entornei nos meus lábios,
Não escutas a minha alma em alvoroço,
Nem atentas no meu olhar sóbrio

Apenas nesse mundo silencioso te quero encontrar.